quinta-feira, 21 de maio de 2020

Cerca de 2 mil pessoas acompanham debate virtual sobre fome e pobreza durante a pandemia

Reunião pública foi realizada pelo deputado Leandro Grass, por meio da plataforma virtual e-Democracia

Foto: Pedro Paulo.
O combate à fome e à pobreza no DF em período de pandemia foi tema de debate na manhã desta terça-feira (19) na plataforma virtual da Câmara Legislativa. Pelo e-Democracia, ferramenta de interação digital da Casa. O deputado Leandro Grass (Rede) promoveu a discussão com gestores, pesquisadores, assistentes sociais e usuários dos benefícios assistenciais do DF. Em quase três horas de reunião, mais de 2.200 pessoas acompanharam as apresentações dos convidados sobre o tema.

Uma das principais abordagens na reunião pública foi a ampliação das desigualdades sociais que a pandemia do novo coronavírus tem causado. "Hoje esse abismo já é enorme, e a tendência é que aumente ainda mais a pobreza e a fome nos territórios", observou o deputado. A opinião foi corroborada pela diretora-executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia. "A pandemia está mostrando a crueldade que a desigualdade social carrega em todos os países", acrescentou Katia.

Outro ponto debatido no encontro virtual foi o papel do Estado no combate à fome e à pobreza, principalmente em tempos de crise. Para a servidora do CRAS do Guará, Olga Jacobina, o acesso à assistência social deveria ser mais amplo. Ela citou a falta de busca ativa para este serviço, hoje feito por telefone nas regiões do DF. "Não foi feito nenhum aporte nos CRAS para o atendimento remoto", disse. Para Jacobina, "os benefícios precisam chegar a todos, não só aos que têm telefone, internet e Whatsapp".

Diante das diversas atuações do terceiro setor para cobrir a ausência de auxílio à boa parte da população em situação vulnerável, não faltaram críticas à forma como os governos estão agindo. "A agenda econômica liberal faz com que o Estado se retire sem nenhum pudor do seu papel de garantir os direitos básicos", ressaltou a integrante do Observatório de Políticas de Segurança Alimentar e Nutricional da UnB. Elisabetta Recine, que presidiu o Consea Nacional até 2019, quando foi extinto pelo governo federal.

A situação na ponta - A crítica de Elisabetta Recine reflete o que mostrou Aline Sousa, representante de uma cooperativa de catadores de recicláveis do DF. Com dificuldade em conseguir alguma renda pelo trabalho, tendo em vista que as atividades dos catadores foram interrompidas em março, Aline contou que os colegas de trabalho se viram em um dilema grave, que é escolher entre não correr risco de pegar a Covid-19 e depender da assistência social ou desobedecer o decreto e trabalhar correndo o risco de contrair a grave doença. "Desde o dia 20 de março, nós catadores estamos em uma condição ainda maior de vulnerabilidade. Sou catadora, mãe de 7 filhos, e agora estamos impedidos de trabalhar. Não recebemos a cesta emergencial do governo. Estamos sem alternativas. A fome não espera", lamentou Aline.

A angústia foi compartilhada por Rogério Barba, da Rede Raisss Brasília, que apoia pessoas em situação de vulnerabilidade. Ex-morador de rua, ele lembra que essas pessoas dependem muito de assistência, e que a falta do Estado é extremamente degradante. "A nossa política assistencial é falha. O Estado não discute essas políticas com a ponta, com os próprios moradores de rua. Essa população está até mesmo sem a comida do lixo para comer. Essa é a real situação", resumiu.

Considerações - Após dar voz à parte mais interessada dos serviços assistenciais, que são as pessoas que teriam que receber os benefícios, o deputado Leandro Grass também ouviu a subsecretária de Segurança Alimentar Nutricional da Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDES), Karla Ramos. Representando o governo, Karla lamentou a distribuição de comida estragada para moradores de rua, e avisou que o órgão está alerta à situação. Contou também que as ações estão sendo trabalhadas dentro do governo para abrir novos caminhos de acesso às cestas emergenciais e aos auxílios.

Para Leandro Grass, é importante que as autoridades sejam as principais atuantes na assistência social, e isso não se refere apenas à distribuição de alimento e renda, mas também a estudos e análises de dados que colaborem na distribuição para quem precisa de ajuda. "O Inesc, com as pesquisas, com relatórios, faz o verdadeiro retrato do que é o DF, aponta onde tem mais gente precisando, mas são dados pouco utilizados", observa. "Infelizmente, a velocidade da gestão é muito diferente da velocidade da urgência", lamentou ao lembrar que enquanto governantes se reúnem para definir ações, a população aguarda sem ter o benefício liberado.

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